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Guiné-Bissau/Governação: As teias com que se tecem as "alianças"

Guiné-Bissau/Governação: As teias com que se tecem as "alianças"

A mais recente das crises internas que tem ao rubro o PAIGC, com as reuniões do comité central e ministeriais, quais " ribeiras", a servirem para lavagem, intra muros, da roupa suja e mofada, remete-me em parte aquela celebre anedota da anciã e os parlamentares...

Certo dia cruzando o largo de um parlamento, uma pudica anciã deixa-se surpreender pelo despudor de linguagem vinda do interior da casa das leis - salafrário, cabrão, gatuno, vigarista, intriguista, filho da ***, cornudo...e demais epítetos afins - a ponto de não resistir em conferir in loco a razão para tanta assertiva troca de mimos.
Para surpresa da "Velha", o que acabava de vivenciar não passava de um mero expediente da praxe, em que o secretário da mesa do parlamento se limitava a confirmar, a presença dos parlamentares antes do início da plenária.
Encarada pois deste prisma, a realidade vivida nos últimos dias pelo partido dos "camaradas", no Poder na Guine Bissau, não destoa la muito deste episodio anedótico. As acusações e os mimos trocados entre os "camaradas", não deixam margem para outras conjecturas!
* Ministro dos recursos naturais, Daniel Gomes acusado de "surripiar" verbas coletadas do contrato de exploração das areias pesadas de Varela, no Norte do pais.
* Secretário de Estado das comunidades, Idelfrides Fernandes enredado num lucrativo negocio de venda de passaportes de serviço da Guine Bissau, a cidadãos chineses, acusação que já lhe valeu inclusive umas horas na "Choça".
* Ministro dos negócios estrangeiros, Mário da Rosa (um ex ministro das pescas do governo de transição) envolvido no "transvio " e para uso pessoal, de um gerador pertença de um projecto pesqueiro.

* Secretário de Estado dos transportes, João Bernardo Vieira colocado sob suspeita, pelo demissionário ministro da presidência e assuntos parlamentares, Baciro Dja, por ter celebrado com a companhia aérea Euroatlantic, de bandeira portuguesa, um acordo alegadamente de contornos e somas nebulosas.
* Dja acusado pelo secretário de Estado dos transportes de ter " mamado" verbas disponibilizadas pelo governo a peregrinação de um grupo de muçulmanos nacionais, a Meca...
* Primeiro-ministro responsabilizado pelo seu ministro dos assuntos parlamentares, Baciro Dja de tentar esquivar-se a prestação de contas de verbas doadas por Angola a campanha eleitoral que levaria os "camaradas" ao Poder.
E como se não bastasse, a "arbitrar" o quiproquó, um presidente da Republica sobre o qual impende, (enquanto um ex ministro das finanças do governo deposto de Carlos Gomes Júnior) fortes suspeitas de peculato envolvendo 12 milhões de dólares de reforço orçamental, doados por Luanda.
Convenhamos, um rosário de acusações, contra-acusações e de suspeitas passível de se alongar por ai afora, mas que por mera economia da "pachorra" , tentaremos circunscrever a algumas das aqui elencadas.
Começa entretanto por ser curioso, o facto dos três primeiros casos acima referenciados e por sinal com a "justiça" guineense a ilharga, envolverem coincidentemente três ex-membros do governo "golpista" , entretanto transitados para a actual elenco do primeiro ministro Domingos Simões Pereira.
Um governo do qual, pela expressão inequívoca da confiança depositada pelo eleitorado nacional, se pretendia de ruptura clara com um passado de ma memoria para os guineenses.
Mas embevecido pelas alianças e consensos circunstancias, ao arrebanhar pró seu elenco governamental, membros de seu partido que integraram um descredibilizado e suspeito governo transição, Simões Pereira limitava-se assim a franquear as portas a "mesmice" politica do costume, a corrupção e ao antro de intriguismo e de conflitualidade em que se transformou a sua própria actual governação do país?
Mas de que governo de transição, afinal falamos?
De um governo de transição que resultara da ruptura, pela forca das armas, da ordem constitucional e que em termos de isolamento, de credibilidade e de reconhecimento politico e internacional se viu enquanto imperou, confinado a um monologo com o próprio umbigo.
Um governo que face as severas limitações de tesouraria e a sobrevivência a pão e agua, que impelido pela labiríntica realidade, fora forcado a enviesar a governação a uma espécie do salve-se quem puder, num gesto de clara anuência a "delapidação" dos recursos do pais.
E é pois neste contexto que se enquadram os casos da areia pesada de Varela, da devastação das florestas nacionais para a extracção insustentável da madeira, das licenças a pesca "ilegal", dos expedientes eivados de ilegalidade, entre eles, a venda de passaportes nacionais a cidadãos estrangeiros a par do narcotráfico, quanto mais não seja pelo facto da avalização do negocio dos mísseis terra-ar para as FARC colombianas em troca de cocaína e de avultadas somas em dólares e que culminaria na detenção do chefe de estado-maior da armada, o almirante Bubo Natchuto, pelos norte americanos, ter contado com a preciosa ajuda do governo de transição de Rui Barros, Nhamadjo, António Indjai e comanditas.
Alias o documento do Estado da Guine Bissau, na posse da Agencia de Combate a narcóticos dos USA autorizando as Forcas Armadas a aquisição dos mísseis em questão e seu posterior endossamento aos rebeldes colombianos tem a assinatura de um alto responsável do governo de transição, devidamente identificado por Washington.
Por conseguinte, ao não ter considerado, por um quiçá deficit de determinação, de coragem politica, de compromisso com a transparência, a responsabilização e com fim de um ciclo de crónica impunidade no pais, a então aventada sugestão de uma sindicância ou investigação sob tutela internacional aos alegados desmandos da governação "golpista" , Bissau acabou em nome de uma almejada, mas frágil e efémera estabilidade , por herdar e pactuar com realidades e praticas "deja vu" das quais entretanto nunca conseguiu se desenvencilhar.
E as consequências são hoje eloquentes!
Vá-se lá agora saber com que teias se teceram as alianças espúrias, as juras de uma luta sem tréguas contra a impunidade e a irresponsabilização?

Por: Nelson Herbert
Washington DC,USA
In Semanario Angolense

Last modified onFriday, 26 June 2015 15:57
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