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Sistema Educativo em Cabo Verde: O caso de Chão Bom, Tarrafal de Santiago

Sistema Educativo em Cabo Verde: O caso de Chão Bom, Tarrafal de Santiago

A comunidade de Chão Bom é um dos centros urbanos do Município de Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, conhecido como “Zona de Boca Porto”, onde habitam cerca de 8.000 habitantes, de acordo com o censo de 2010.

Uma das grandes revindicações dos Tarrafalenses e, em particular, da comunidade de Chão-Bom, foi a de poderem dispor de uma escola secundária com uma vertente essencialmente técnica e profissionalizante, uma vez que o Município já dispunha de uma escola secundária integrada na rede de ensino regular.
A ser instalada, no Município, uma outra escola com idêntico perfil, poderia vir a assistir-se a uma situação de redundância e de alguma “concorrência” entre os dois estabelecimentos na tentativa de captação de estudantes, a que acresce a ausência de alternativas em matéria de formação, impedindo os jovens de direcionarem os seus estudos de acordo com as perspetivas de carreira para as quais se sentem mais vocacionados.
Para além de uma matéria sobre a qual a população do Tarrafal e diversos especialistas com notoriedade adquirida no País e no estrangeiro tiveram oportunidade de se pronunciar, à época, na sequência da decisão do governo anterior, de instalar mais uma escola secundária do ensino regular na nossa comunidade esta era, desde logo, uma questão de bom senso quando todos sabemos que o Tarrafal e Cabo verde, de uma forma geral, carecem de técnicos qualificados que permitam resolver e dar respostas competentes a problemas de caráter técnico, permitindo gerar, por esta via, um mercado de mão-de-obra especializada em quantidade e qualidade.
A defesa desta posição foi assumida, desde logo, no momento da colocação da primeira pedra e com o início da construção da escola, mantendo-se até à data da sua inauguração em meados de 2009.
Permito-me recordar aqui que, na ocasião, os decisores do momento, num encontro com a população, procuraram defender-se com a alegação de que estavam a analisar o assunto, embora tivessem manifestado uma maior preocupação com questões relacionadas com custos de funcionamento, colocando em segundo plano, claramente, a importância estratégica do investimento numa formação de qualidade para os nossos jovens e futuros “técnicos”, esquecendo que esta não pode ser calculada em termos de preço.
Estou certo de que a existência de uma escola técnica e profissional em Chão Bom beneficiaria toda a Ilha de Santiago e, em última análise, todo o País, já que permitiria que os jovens aqui formados tivessem acesso a emprego muito mais rapidamente do que um estudante do ensino regular.
É estatisticamente demonstrável que um jovem apetrechado de formação técnica consegue, com muito maior facilidade, obter colocação numa empresa ou criar o seu próprio emprego, obtendo assim rendimentos gerados a partir do seu trabalho, influenciando a criação de novos negócios e de mais postos de trabalho.
Se este “dilema” subsiste, ainda hoje, é porque os custos de funcionamento e de formação foram colocados acima da qualidade e da diversidade necessárias à educação dos nossos jovens e futuros técnicos profissionais.
De todo o modo, devemos ter consciência de que, mesmo que alguém agora viesse defender o contrário, esta era uma reivindicação claramente condenada à partida já que, naquela ocasião, um dos membros da ala de revindicação não se coibiu de dizer que “de nada irão valer as vossas revindicações ou inquietações relativamente a futuros jovens aqui formados no sentido de se produzirem técnicos profissionais de qualidade para município visto que não há vontade e espirito para dotar o Município de uma escola com uma vertente técnica”.
Devo deixar claro, em primeiro lugar, que partilho e louvo a iniciativa da construção da escola secundária de Chão Bom. Visto que, é cada vez mais certo que neste país a educação se afirma como uma riqueza e um investimento para a vida, dizia Óscar Wilde que a educação é uma coisa admirável, mas é bom recordar que nada do que vale a pena saber pode ser ensinado, nessa constatação, o caso de Chão Bom não passa ao lado dessa premente questão.
Devo dizer também que, no entanto, discordo do modelo de funcionamento da referida escola.
Depois de sete anos de funcionamento, já muito perto de completar uma década é, em meu entender, extremamente lamentável a forma como a Escola Secundária de Chão Bom funciona e a sua deficiente ligação à sociedade e à comunidade local.
Esta minha discordância prende-se, essencialmente, com aquela que é a perceção geral do que deve ser o papel e a intervenção da Escola Secundária junto da comunidade, e de uma completa inversão deste papel, ao longo dos últimos anos, a partir das opiniões manifestadas pelos cidadãos mas, também, a partir da minha própria observação in loco.
É do conhecimento público que Chão Bom tem sido, desde sempre, uma comunidade com carências ao nível de instituições e de serviços, sobretudo públicos, que deem resposta às necessidades primárias da população.
De todo o modo, sempre houve vozes na comunidade que se manifestaram através de grupos de jovens e de forças vivas, ao longo de diversas gerações, que lutaram e revindicaram e chamaram a atenção para a importância estratégica da necessidade de um estabelecimento de educação com qualidade e diversidade ao nível da formação profissional e técnica que pudesse dotar o País e as empresas de quadros intermédios qualificados.
Além do papel que estas instituições devem desempenhar na educação dos nossos jovens, naturalmente, a sua importância é ainda acrescida pela influência que exercem ou devem exercer na sua formação cívica, desviando-os de apelos fáceis, nocivos e pouco recomendáveis, tornando-os cidadãos responsáveis, plenamente integrados socialmente.
A verdade é que ao longo destes sete anos, os gestores educativos responsáveis por esta escola têm dado prioridade à promoção de atividades lúdicas, em minha opinião, de caráter pedagógico duvidoso.
Em meu entender, estas atividades não têm nada que ver com a formação e valorização dos estudantes ou com a sua integração numa sociedade moderna, a cada dia mais competitiva, que nos confronta com enormes e dramáticos desafios, para os quais devemos todos estar preparados.
É com tristeza porém que, ao longo destes anos, verificamos que os referidos gestores privilegiaram a promoção de eventos noturnos no perímetro da escola, durante os períodos letivos, com a realização de atividades “lúdicas” para angariação de fundo social - que efetivamente não tem fundo - tais como, por exemplo, concursos de “Miss” e eventos noturnos, habitualmente designadas de “Tenda Eletrónica”.
Festa e mais festa, até cerca das 6:00 e 7:00 horas de manhã numa atitude arrogante e prepotente de: “Estou”, “Quero”, “Posso” e “Mando”, na perspetiva de alguém a quem estão atribuídos cargos e deveres de caráter pedagógico de uma enorme importância na formação dos nossos jovens e que entende, por essa razão, não ter de prestar contas a ninguém, por ações, em meu entender, irresponsáveis e por uma péssima gestão dos recursos públicos.
Como é óbvio, os resultados deste tipo de gestão começam a manifestar-se e a estar à vista de todos.
Uma sociedade em que as crianças participam em desfiles durante a noite sem atender às necessidades e cuidados de saúde e de repouso que lhes estão naturalmente associados, equiparando-os a jovens de 18 anos ou de idade superior, porque chegaram a casa com indicações dadas na escola de que é normal estarem durante a noite numa “School Street” sentirá, mais tarde ou mais cedo, os reflexos de comportamentos resultantes de uma educação em que tudo é permitido, sem respeito pelos deveres de cidadania que a todos obriga.
Dita a experiência e o senso comum que ações como a “School Street” resultam, invariavelmente, em situações de difícil controlo como, por exemplo, as de estudantes que confrontam os professores sobre notas que lhes foram prometidas durante estes eventos noturnos ou de jovens a trocarem insultos e agressões através do arremesso de garrafas, pedras e de outros objetos atingindo também, por vezes, as próprias brigadas da polícia que se veem obrigados a disparar tiros para o ar a fim de “arrefecer os ânimos”, a solicitar reforços ou a utilizar meios mais “drásticos” e “pesados” para garantir o controlo da ordem e da segurança pública.
É verdade que se trata de situações extremas mas, também é verdade que após a realização das “School Street”, crianças e jovens permanecem na rua até ao amanhecer, consumindo bebidas alcoólicas, a fumar ou a praticar atos menos próprios para a sua idade.
Estes são comportamentos nada abonatórios para os jovens e muito menos para os formadores, que os pais, encarregados de educação, famílias e amigos observam com preocupação porque comprometem, sobremaneira, o futuro “risonho” que ambicionam, naturalmente, para os seus filhos.
As situações descritas resultam, a meu ver, de uma gestão do meio e dos recursos escolares que privilegiam, fundamentalmente, interesses imediatos de um “grupinho” com motivações claras, pessoais, políticas e, estou certo, partidárias.
É neste sentido que dirijo um forte apelo a todos os responsáveis políticos locais e do Governo Central para que dediquem uma maior atenção ao que se passa em Chão Bom, em matéria de educação escolar, estabelecendo ou reformulando os programas de formação e de ocupação saudável dos tempos livres, para os jovens desta comunidade.
Acredito que a inversão desta situação é agora possível e menos problemática.
Para tal, precisam de ser desenvolvidas ações concretas que permitam compensar a comunidade pelos prejuízos sofridos nesta matéria e pelo tempo perdido que uma gestão ineficaz e, diria mesmo, danosa, que tragicamente ainda se mantém, que tem causado e afetado o desenvolvimento harmonioso e tranquilo das crianças e dos jovens no seio do seu meio familiar e afetivo.
A inversão de um cenário ou panorama que, admito, será desconhecido para muitos mas que é do conhecimento de todos quantos convivem diariamente com esta realidade far-se-á, estou certo, tomando decisões no sentido da inclusão de crianças e jovens mas, também, de adultos, através de programas de cariz social, de projetos educativos, de eventos de sensibilização para a cidadania ativa e participante, de atividades geradoras de emprego e de rendimento, particularmente dirigidas às mulheres e aos chefes de família.
Estes programas devem visar, sobretudo, a promoção de economias familiares mais sustentáveis porque este será, sem dúvida, o melhor caminho para um futuro de progresso e de tranquilidade.
Confio que este meu apelo, que aqui deixo, será ouvido e partilhado por todos quantos se identificam com as preocupações que acabei de expor e que desejam, tal como eu, que o quadro que acabei de descrever, não se agrave e não se torne um paradigma no nosso sistema de ensino e prejudicial, em última análise, ao desenvolvimento do nosso País.
O autor: Victor Mendes

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